A reforma tributária está representando uma das maiores transformações no ambiente fiscal das últimas décadas, especialmente para o setor de varejo. O segmento é altamente sensível à tributação, o que acaba impactando diretamente os preços, margens e competitividade. Por isso, as mudanças estão exigindo atenção estratégica por parte dos empresários.
Neste artigo, vamos abordar os principais impactos da reforma tributária no varejo, como o novo modelo de tributação pode afetar sua operação e, principalmente, o que sua empresa deve fazer agora para se preparar para esse novo cenário.
Breve contexto da reforma tributária
A reforma tributária sobre o consumo foi consolidada pela Lei Complementar nº 214/2025, que regulamenta a criação do novo modelo de tributação baseado no chamado IVA Dual. Esse modelo substitui tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS por dois novos impostos: CBS (federal) e IBS (estadual e municipal) .
O objetivo principal é simplificar o sistema tributário brasileiro, reduzir a cumulatividade e aumentar a transparência na cobrança de tributos. No entanto, para o varejo, essa mudança não é apenas operacional, ela altera toda a lógica de formação de preços e estrutura de custos.
Atualmente, as empresas brasileiras estão vivenciando a primeira fase da reforma: o ano teste. Marcado pelas aplicações iniciais dos novos tributos CBS e IBS, ainda com alíquotas simbólicas, com o objetivo de iniciar a adaptação dos negócios ao novo modelo.
Cronograma da reforma tributária
- 2026: ano de teste, com aplicação inicial da CBS e IBS e alíquotas reduzidas
- 2027: início da cobrança efetiva CBS e aplicação inicial do IS (Imposto Seletivo)
- 2029 a 2032: transição gradual entre ICMS/ISS e IBS
- 2033: entrada em vigor completa do novo sistema
Durante esse período, empresas precisarão operar com dois modelos tributários simultaneamente, o que aumenta a complexidade no curto prazo.
O IVA Dual da reforma tributária no varejo
O IVA Dual é o principal pilar da reforma. Ele segue o conceito de tributação sobre valor agregado, com não cumulatividade ampla, ou seja, empresas podem compensar créditos ao longo de toda a circulação do produto e/ou serviço. Esse formato é muito comum em países da Europa e da América do Norte.
Na prática, isso muda completamente a lógica atual do varejo. E um dos pontos mais relevantes dessa mudança está justamente nas alíquotas. Hoje, setores como serviços e varejista operam com cargas entre 2,65% e 8,65%. Com a reforma, a carga pode chegar a um IVA entre 27% e 33%.
Isso não significa automaticamente aumento de carga, mas exige análise técnica, já que o aproveitamento de créditos passa a ser determinante.
Principais impactos no setor de varejo
Simplificação e transição
A reforma promete reduzir a complexidade tributária no longo prazo, mas no curto prazo exige adaptação intensa. Empresas precisarão lidar com novos cálculos, regras e obrigações simultâneas.
Bens essenciais
Produtos essenciais tendem a ter redução ou até isenção de tributos, o que pode impactar positivamente o consumo e o volume de vendas em segmentos alimentares.
Produtos não essenciais
Itens de luxo ou nocivos, que hoje dependem de incentivos fiscais, podem sofrer aumento de carga, especialmente com o fim da guerra fiscal entre estados.
Split Payment
O modelo de pagamento fracionado (split payment) tem o objetivo de reduzir riscos de inadimplência tributária, mas impacta diretamente o fluxo de caixa das empresas.
Como o setor deve estar se preparando?
A reforma tributária no varejo não é apenas uma mudança fiscal, mas sim uma (coagida) transformação estrutural do negócio. Empresas que não estão se preparando podem perder margem e competitividade.
A adaptação exige revisão de processos, tecnologia e estratégia operacional:
Revisão de sistemas (ERP)
Sistemas de gestão precisarão ser atualizados para lidar com:
- novos cálculos tributários
- dupla apuração durante a transição
- emissão de documentos fiscais no novo padrão
A tecnologia deixa de ser suporte e passa a ser um fator crítico de conformidade.
Análise da cadeia de valor
Com a não cumulatividade plena, entender a cadeia de fornecedores e clientes se torna essencial.
As empresas precisam responder perguntas como:
- Onde estão os créditos tributários?
- Como a tributação impacta cada etapa da operação?
- Qual o efeito no preço final e na margem?
Esse nível de análise será determinante para manter a competitividade no novo cenário.
O varejo diante da nova lógica tributária
A reforma tributária no varejo não representa apenas uma mudança de regras, mas uma alteração estrutural na forma como as empresas operam, formam preços e sustentam sua competitividade. O novo modelo traz ganhos relevantes no longo prazo, mas exige, desde já, um olhar mais estratégico sobre a operação.
O momento atual pede mais do que acompanhamento, exige entendimento dos impactos no negócio, revisão de processos e sistemas, além de decisões mais criteriosas sobre precificação e estrutura de custos.
Empresas que tratam a reforma como obrigação tendem a reagir tarde. Já aquelas que se antecipam, analisam cenários e se estruturam desde agora transformam o risco em eficiência e constroem vantagem competitiva no novo ambiente tributário.



